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Os podcasts de clima informal como nova vitrine para políticos


Lula conseguiu 3,3 milhões de visualizações de entrevista em menos de 24 horas. Para pesquisador, mídia terá papel importante em 2022

Podcasts de entrevista de clima informal têm ocupado cada vez mais a agenda dos políticos do país. Na quinta-feira (2), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu no PodPah, um dos programas de maior alcance no YouTube brasileiro. Em menos de 24 horas, o programa com o pré-candidato do PT à Presidência nas eleições de 2022 conquistou 3,3 milhões de visualizações.


Outros presidenciáveis como o governador paulista João Doria (PSDB); o ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT) e o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta também participaram de programas similares. O modelo, apesar de existir nas eleições de 2018, ganhou popularidade no país a partir do ano seguinte, e deve ser usado nas campanhas de 2022.

O modelo ‘mesacast’

Dos cinco podcasts mais ouvidos do Brasil – segundo dados da Apple referentes à audiência semanal em todas as plataformas de streaming – , dois programas, PodPah e Flow, seguem o formato conhecido como “mesacast”, no qual um ou mais apresentadores sentam em volta de uma mesa e trazem um convidado para uma conversa informal que dura cerca de duas horas ou mais.

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O modelo veio dos EUA, inspirado no podcast do comediante Joe Rogan, que desde 2009 fala com figuras importantes das mais diversas áreas. Já estiveram no programa americano o empresário Elon Musk, CEO da Tesla e SpaceX; o ex-candidato à presidência americana Bernie Sanders e o cineasta Quentin Tarantino (“Pulp Fiction”).

No Brasil, o pioneiro do formato “mesacast” foi o Flow, apresentado pelos influenciadores Igor Coelho (“Igor 3K”) e Bruno Aiub (“Monark”). Eles contam com 3,5 milhões de inscritos no YouTube, e já receberam nomes como João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Eduardo Bolsonaro (PSL) e Luiz Henrique Mandetta (DEM), todos conquistando milhares de visualizações.

O PodPah, que recebeu Lula na quinta-feira (2), segue o formato, mas foi concebido para dialogar com o público jovem da periferia. Apresentado por Igor Cavalari (“Igão”) e Thiago Marques (“Mítico”), o canal conta com 4,3 milhões de inscritos no Youtube?. Além do ex-presidente petista, já recebeu figuras como o deputado federal Marcelo Freixo (PSB-RJ) e Boulos.

Apesar de figura conhecida, o presidente Jair Bolsonaro nunca participou de um podcast do tipo. Ele fala para seu próprio público nas lives semanais em redes sociais e em entrevistas em rádios do interior do país.

28 milhões é o número de ouvintes recorrentes de podcasts no Brasil, segundo o Ibope

7 milhões é o número de brasileiros que começaram a ouvir podcasts entre 2019 e 2020

Os podcasts e a comunicação política

Podcasts como o Flow e o PodPah não existiam nas eleições de 2018. Por isso, 2022 será a primeira campanha que essa forma de comunicação poderá ser usada por candidatos.


Por se tratar de um programa de entrevistas, os apresentadores não precisam tratar todos os candidatos da mesma forma durante o período oficial de campanha, entre meados de agosto e o início de outubro, segundo entendimento do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Isso desde que não haja pedido explícito de votos.


Para Fábio Silvestre Cardoso, jornalista, mestre em comunicação, escritor do livro “Capanema” e produtor do podcast Rio Bravo, os “mesacasts” terão espaço importante na próxima campanha.


“Em 2014, eu tinha que explicar o que era um podcast”, disse ao Nexo. “As pessoas não conheciam e não conheciam as possibilidades. Hoje, sabem. E esses políticos podem usar dessa mídia para falar com grupos que a mídia tradicional não alcança, um público mais jovem, especialmente.”


A visão de que os podcasts podem atingir um público diferente daqueles da mídia tradicional já está consolidada até mesmo nas assessorias dos políticos. “Essa linguagem de bate-papo possibilita abordar temas complexos de maneira mais aprofundada, mas sem a rigidez de outros formatos de comunicação mais tradicionais”, disse ao site Poder 360 o governador paulista João Doria, em agosto.


Segundo Cardoso, pré-candidatos estão comparecendo nos podcasts ainda em 2021 como uma espécie de medida preventiva. “Estão tentando não ser atropelados como foram pelo WhatsApp nas eleições de 2018”, afirmou, se referindo ao disparo massivo de notícias falsas e desinformação no aplicativo.


Ele disse também que a informalidade dos “mesacasts” – que dificilmente fazem perguntas difíceis – traz vantagens aos entrevistados. “Os apresentadores não se apresentam e não se portam como jornalistas, é um outro jogo. E nessa, os entrevistados podem impor suas narrativas pessoais sem muito esforço”, disse.


Paralelamente aos “mesacasts”, há os canais de cortes, que republicam os melhores trechos das entrevistas. Cardoso acredita que os cortes vão se proliferar ainda mais em 2022. “Eles dão tração ao podcast e com certeza vão ser usados ao máximo”, afirmou.


No tom informal, há também a possibilidade de humanizar a figura do político, já que as conversas fluem naturalmente e podem se estender por horas. “Eles perceberam que existe uma plataforma com um papo sem hora para acabar, sem uma pauta definida e que, na prática, é uma conversa e não uma entrevista”, disse ao jornal O Globo o comediante Rogério Vilela, apresentador do podcast Inteligência Limitada, que já recebeu Ciro, Mandetta, Boulos e Doria, e que conta com 995 mil inscritos.


“Estão vendo uma oportunidade de mostrar um lado mais humano, com um tempo que não teriam na televisão ou outros meios. No podcast, a audiência está participando do programa ao vivo, eles têm mais tempo e poderão falar sobre ideias, planos de governo e não só repercutirem temas polêmicos”, afirmou.

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