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Quando opositores de Bolsonaro se perdem numa teia de boatos


A expressão “noivinha do Aristides” foi um dos temas mais comentados das redes sociais na segunda-feira (29). O termo faz referência a um boato recheado de desinformação que se propagou principalmente entre opositores do presidente Jair Bolsonaro.


O episódio teve como centro uma atitude autoritária do presidente – mandar prender uma mulher de 40 anos que o xingou à beira da rodovia Presidente Dutra no sábado (27). Mas, nas redes sociais, a repercussão ao caso foi tomada por uma discussão com traços homofóbicos e sem base em fatos comprováveis.


Tudo começou com o boato de que a mulher teria usado o termo “noivinha do Aristides” para xingar o presidente, em referência a um suposto relacionamento de seu tempo no Exército. Na verdade, a mulher nunca usou o termo, como disseram seus advogados ao jornal Folha de S.Paulo na terça-feira (30), e a história que teria embasado o apelido não apresenta fundamentos.

Fake news e política

Embora boatos e mentiras sempre tenham feito parte da política, a difusão proposital de versões sem base em fatos comprováveis cresceu e atingiu alcance inédito com a ascensão das redes sociais, impulsionada por fenômenos como a pós-verdade e o viés de confirmação.

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O quadro deu espaço para que a desinformação fosse usada de maneira maliciosa, como ocorreu no Reino Unido durante o período de votação do Brexit (a saída da União Europeia) e nos EUA durante a eleição de Donald Trump, em 2016. Nas eleições presidenciais de 2018, vencida por Jair Bolsonaro, ocorreu o mesmo fenômeno.


A extrema direita é geralmente associada de forma predominante na difusão de desinformação nas redes. Mas isso não significa que seja a única a criar ou disseminar fake news. Isso ficou exposto diante da repercussão da detenção da mulher que xingou o presidente.


A detenção por xingamento

A mulher de 40 anos foi detida no sábado (27), logo após ter xingado Bolsonaro na beira da rodovia Dutra, em Resende, no Rio de Janeiro, onde ele estava para um evento na Academia Militar das Agulhas Negras. Segundo o jornal O Tempo, que teve acesso ao documento, o boletim de ocorrência diz que ela “gritou palavras de calão direcionadas a ele, mais especificamente berrou 'Bolsonaro filho da p..., em atitude de tamanho desrespeito”.


Ainda segundo o boletim de ocorrência, a mulher foi abordada pela Polícia Rodoviária Federal “mediante determinação do próprio sr. Presidente”. Ou seja, foi Bolsonaro quem pediu que ela fosse abordada.


A Polícia justificou a detenção com base nos artigos 140 e 141 do Código Penal, que trata do crime de injúria. O texto estabelece pena de um a três anos e multa para o crime, aumentados em um terço se o alvo das ofensas for o presidente da República. A mulher foi levada à delegacia da Polícia Federal de Volta Redonda, e liberada após se comprometer a comparecer em juízo. O caso foi considerado autoritário e criticado por especialistas em direito.


Não há nada no boletim de ocorrência, que foi reportado por veículos de imprensa na segunda-feira (29), que cite qualquer expressão similar a “noivinha do Aristides”. Na terça-feira (30), advogados da mulher que foi detida disseram à Folha de S.Paulo que ela desconhece o termo e nunca fez uso da expressão. Segundo nota dos profissionais, que informam que ela trabalha na área da saúde, a mulher chamou o presidente de “filho da puta” em um momento de “grave estresse em decorrência do engarrafamento” e como forma de desabafo “por tudo que enfrentou em sua vida profissional”.


O boato. E suas inconsistências

O boato que se espalhou nas redes sociais dizia que a mulher teria gritado “noivinha do Aristides” ao presidente em referência a um outro boato, que não tem base em fatos comprováveis, de que Bolsonaro teria, nos anos 1970, se relacionado com “Aristides”, supostamente um instrutor de judô da Academia Militar das Agulhas Negras. O presidente se formou na academia em 1977.


O Nexo não encontrou registros de que havia um instrutor de judô do Exército com esse nome nessa época. Sites como Boatos.org e E-farsas também fizeram checagem e não acharam registros de “Aristides”. O Nexo também tentou contato por telefone e por e-mail com a Academia Militar das Agulhas Negras e não obteve resposta até o fechamento deste texto.


O boato que circula atribui a informação do suposto caso ao ex-ministro da ditadura militar Jarbas Passarinho, que morreu em 2016. Nas redes, usuários dizem que Passarinho teria feito a revelação do caso em uma entrevista ao site Terra Magazine em 2011.


O repórter que fez a entrevista negou em suas redes na terça-feira (30) que houvesse qualquer menção a um caso de Bolsonaro ou a “Aristides”.


A entrevista está fora do ar, mas trechos que foram preservados e repercutidos em outros sites mostram que não houve qualquer menção a relações de Bolsonaro com outros membros do Exército e tampouco quaisquer referências a “Aristides”.


Questionado sobre a influência e representatividades das ideias de Bolsonaro em relação às Forças Armadas, Passarinho disse: “ele [Bolsonaro] irrita muito os militares também, porque quando está em campanha, em vez de ele ir ao Clube Militar, como oficial, ele vai pernoitar no alojamento dos sargentos (risos). Pra ganhar a popularidade dele”. A entrevista foi publicada por escrito. À época, Bolsonaro (então deputado federal) ganhara repercussão após fazer declarações homofóbicas e com viés racista a programas de televisão como o CQC, da Bandeirantes.


Como parte do boato, circularam também duas fotos falsamente citadas como imagens de Bolsonaro com “Aristides”. Em uma delas, um grupo de homens posa para a foto e, entre eles, está Bolsonaro. Um dos homens que está junto ao presidente é apontado como “Aristides”, mas trata-se, na verdade, do ex-deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF).


Outra foto mostra dois militares se abraçando – um deles, apontado falsamente como Bolsonaro, olha apaixonadamente para o outro, que seria “Aristides”. No entanto, a foto é parte de um acervo sobre a presença LGBTI+ nas Forças Armadas dos EUA.


Origem e repercussão nas redes

Segundo o Google Trends, as primeiras buscas pela expressão “noivinha do Aristides” foram feitas na madrugada de 27 para 28 de novembro. Na segunda-feira (29), as buscas dispararam. Antes do dia 27 de novembro de 2021, não há registro de buscas pela expressão no Google.


No Twitter, não há registro de postagens contendo a expressão “noivinha do Aristides” até o dia 27 de novembro. O primeiro tuíte contendo o boato foi publicado às 6h51 da manhã de domingo (28) por um perfil de um homem que se diz petista – ele não indica de onde teria vindo a informação. O Nexo tentou entrar em contato com o autor, mas não obteve resposta até o fechamento deste texto.


O boato ganhou repercussão e foi compartilhado em tom de piada por usuários das redes sociais. Entre políticos opositores, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) reproduziu o boato. A ex-deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB-RS) também disse que a mulher havia sido presa por ter chamado Bolsonaro de “noivinha do Aristides”. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-PT) também mencionou o suposto motivo da prisão em tom de brincadeira.


Parte da repercussão nas redes fazia piadas com a ideia de que Bolsonaro – que sempre ostentou discursos homofóbicos – teria se sentido ofendido por ter sido “xingado” de “noivinha do Aristides”. Alguns usuários criticaram as piadas publicadas em comentário ao boato, por também perpetuar ideias preconceituosas.


O boato também acabou sendo repercutido por veículos de imprensa, mesmo sem embasamento.


Não é a primeira vez que uma fake news com teor homofóbico ganha repercussão nas redes sociais no cenário político brasileiro. Outros membros da família Bolsonaro já foram alvo de boatos sem fundamento que envolviam a sexualidade.


Mas o caso recente mais emblemático ocorreu durante as eleições de 2018, quando circulou com força a notícia falsa de que Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT, iria promover a “mamadeira de piroca” e o “kit gay” nas escolas brasileiras.


O então candidato Jair Bolsonaro mentiu, perpetuou e explorou essa narrativa falsa. A ideia era obter apoio de setores conservadores da sociedade.

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